Morte
5:06
Morte....
Silêncio sepulcral.
Uma palavra que
representa o pôr-do-sol da vida, o fim de aquele dia que lutamos tanto por
aproveitar e que não queremos que acabe.
Ninguém sabe que existe após a morte,
só conhecemos isso que compartimos e sentimos. Alguns acham que não há vida mais
plena do que aquela pertencente à uma pessoa que sabe quando vai morrer, que
tem a data marcada no calendário e que a única coisa que lhe resta por fazer é
encher os dias que faltam com experiências proveitosas e momentos com seus familiares.
No entanto, o fato mais interessante da morte é que ela e inesperada, e ainda
aqueles que pensam que sabem quantos dias restam em sua vida, estranham que ela
chegue antes o depois do momento acordado. O único período que temos, então, de
pensar na morte é quando ela ainda não tem chegado ou quando não é momento de
ela chegar. Como carear à morte se não a conhecemos? Qual é a atitude que temos
que levar frente a aquilo que ninguém, literalmente, tem sobrevivido?
É curioso. Embora
tentem que a morte não chegue, ninguém sabe quando vai acontecer. A gente
percorre um caminho com um destino incerto: não sabem como é o fim nem quando
vão o atingir. É a única travessia que ninguém quer que acabe. Para as
crianças, essa travessia não tem fim, a morte é alheia, não é parte do seu futuro
e nenhum deles se mortifica com isso. Pelo contrário, os adultos não deixam de
pensar “como se sente morrer e que se passa após da morte? ”. Se uma das
crianças morrer, a gente não vai deixar de ficar surpresa ante um fato tão
inesperado (“Olha, tão jovem!”), mesmo que já tenha sido estabelecido que a
morte não tem hora de chegada.
Não obstante,
os religiosos vêm a morte como um acontecimento transcendental, uma sorte de
momento de plenitude no qual verão recompensadas todas suas boas ações. Morrer
tem que ser uma experiência formidável, não é? Senão, por que Deus a guardou
para o fim? Mas sentem medo. São poucas as pessoas que não sentem medo com a ideia
da morte. A gente acha que é uma coisa escura e tenebrosa, e a única referência
que temos dela é um corpo imóvel cujo único legado será um epitáfio que
descreva em poucas palavras quanto aproveitou a vida enquanto ele viveu. Contudo,
Fernando Pessoa monstra, em “Quando vier a primavera”, que há uma maneira um
pouco particular de reagir diante a morte, uma visão mais real. O mundo não para,
a única coisa que para ao momento de morrer é
o mundo da pessoa que deixa de viver. Até os familiares superam o
acontecimento após um tempo e seguem com suas vidas e suas próprias
preocupações, porque o seu relógio também vai apontar o número 12 num momento
inesperado.
Pensar, um das
numerosas navalhas com as quais manobra o ser humano. O fato de nós refletirmos
sobre a morte tem nos alcançado na vida e, ao mesmo tempo, faz com que não
possamos avançar fluidamente em nosso propósito natural como animais. De fato,
a vida dos animais parece muito mais plena do que a nossa, já que eles não
enchem sua cabeça com pensamentos prejudiciais que protestam contra sua
existência. Não se importa o que acontece após morrermos, ou não deveria, porque
estamos diante uma incógnita que não vai ser resolvida. Deixar de pensar na
morte, ou pensar, como Pessoa, que esse fato não será transcendental no
percurso da vida dos outros é uma alegria, e, ao mesmo tempo, um problema menos.
Uns nascem, outros morrem: um outro ciclo mais da natureza. É importante não
preocuparmos pelo fim, temos que nos preocupar pelo in between, o meio, porque é isso o que conhecemos y podemos gozar.
A morte, veremos.
Verónica Sarache

0 comentarios