Morte

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Morte....

Silêncio sepulcral.

Uma palavra que representa o pôr-do-sol da vida, o fim de aquele dia que lutamos tanto por aproveitar e que não queremos que acabe. 

Ninguém sabe que existe após a morte, só conhecemos isso que compartimos e sentimos. Alguns acham que não há vida mais plena do que aquela pertencente à uma pessoa que sabe quando vai morrer, que tem a data marcada no calendário e que a única coisa que lhe resta por fazer é encher os dias que faltam com experiências proveitosas e momentos com seus familiares. No entanto, o fato mais interessante da morte é que ela e inesperada, e ainda aqueles que pensam que sabem quantos dias restam em sua vida, estranham que ela chegue antes o depois do momento acordado. O único período que temos, então, de pensar na morte é quando ela ainda não tem chegado ou quando não é momento de ela chegar. Como carear à morte se não a conhecemos? Qual é a atitude que temos que levar frente a aquilo que ninguém, literalmente, tem sobrevivido? 

É curioso. Embora tentem que a morte não chegue, ninguém sabe quando vai acontecer. A gente percorre um caminho com um destino incerto: não sabem como é o fim nem quando vão o atingir. É a única travessia que ninguém quer que acabe. Para as crianças, essa travessia não tem fim, a morte é alheia, não é parte do seu futuro e nenhum deles se mortifica com isso. Pelo contrário, os adultos não deixam de pensar “como se sente morrer e que se passa após da morte? ”. Se uma das crianças morrer, a gente não vai deixar de ficar surpresa ante um fato tão inesperado (“Olha, tão jovem!”), mesmo que já tenha sido estabelecido que a morte não tem hora de chegada. 

Não obstante, os religiosos vêm a morte como um acontecimento transcendental, uma sorte de momento de plenitude no qual verão recompensadas todas suas boas ações. Morrer tem que ser uma experiência formidável, não é? Senão, por que Deus a guardou para o fim? Mas sentem medo. São poucas as pessoas que não sentem medo com a ideia da morte. A gente acha que é uma coisa escura e tenebrosa, e a única referência que temos dela é um corpo imóvel cujo único legado será um epitáfio que descreva em poucas palavras quanto aproveitou a vida enquanto ele viveu. Contudo, Fernando Pessoa monstra, em “Quando vier a primavera”, que há uma maneira um pouco particular de reagir diante a morte, uma visão mais real. O mundo não para, a única coisa que para ao momento de morrer é o mundo da pessoa que deixa de viver. Até os familiares superam o acontecimento após um tempo e seguem com suas vidas e suas próprias preocupações, porque o seu relógio também vai apontar o número 12 num momento inesperado. 

Pensar, um das numerosas navalhas com as quais manobra o ser humano. O fato de nós refletirmos sobre a morte tem nos alcançado na vida e, ao mesmo tempo, faz com que não possamos avançar fluidamente em nosso propósito natural como animais. De fato, a vida dos animais parece muito mais plena do que a nossa, já que eles não enchem sua cabeça com pensamentos prejudiciais que protestam contra sua existência. Não se importa o que acontece após morrermos, ou não deveria, porque estamos diante uma incógnita que não vai ser resolvida. Deixar de pensar na morte, ou pensar, como Pessoa, que esse fato não será transcendental no percurso da vida dos outros é uma alegria, e, ao mesmo tempo, um problema menos. Uns nascem, outros morrem: um outro ciclo mais da natureza. É importante não preocuparmos pelo fim, temos que nos preocupar pelo in between, o meio, porque é isso o que conhecemos y podemos gozar. A morte, veremos. 

Verónica Sarache


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